2003-07-27

Metamorfose

Sou insecto asqueroso, que acordo na própria cama.
Sou o resto dos outros, bocados de nada.
Sou tudo aquilo que ninguém quer ser, que ninguém quer saber.

Devagar perco os sentidos e ganho outros.
Depressa vejo quem eu realmente era, onde vivia, onde estava.

Por mim ninguém irá rezar, por mim ninguém irá se preocupar.
Apenas tu, apenas tu que um dia foste sangue do meu sangue.
Apenas tu, vês neste corpo feio e de animal, o resto de pessoa que existe em mim.

Devagar percebo quem sou, quem irei ser no futuro.
Depressa adquiro várias dores resultantes desta metamorfose.

Assim irei saber, por fim, qual a minha sorte.
Sou ser acabo, morro de fome, morro por falta de companhia.
Estou fraco, já poucas forças tenho para resistir a tamanha dor.

Devagar foste tu também perdendo a carinho por mim.
Depressa deixei-me morrer, pela falta que me fazia de ser alguém.

2003-07-04

Sinais de Inês

Não precisas de me dizer o que são, que histórias contam. São sinais da tua presença, da tua ausência. São marcas gravadas para todo o sempre no teu corpo, na minha alma. São pontos que marcam cada retrato teu, cada lágrima da tua vida, cada traço de sangue que escorre em dor pela falta de parte de ti, que esperas agora encontrar...que te espero dar. São sinais, são desenhos, são mistérios, que não precisas de me desvendar, de me segredar ao ouvido o mundo escondido que significam dentro ti. São marcas tuas deixadas em mim, são bocados teus que repousam na minha pele também. É parte de ti que sempre nos pertenceu.