2007-11-03

Hoje sou mesmo todos os dias

Foram dois passos dados com a certeza de que algo iria mudar
Adormecia e acordava com um sabor estranho na boca
O arrependimento era algo desinteressante
O sabor do meu próprio sangue era algo renovador
Avancei porque pensei ter ouvido o meu nome
Sangrei porque pensei ter morrido

Dou-te as minhas mãos cheias de lembranças tuas
Dou-te porque já não preciso delas
Já não me fazem avançar como dantes
Antigamente sangrava todos os dias
Agora já nada me faz ferir de morte
Dantes morria e renascia todos os dias
Pelas lembranças que me deixavas
Pelos sonhos que me assombravam a realidade
Hoje sou mesmo todos os dias.

2007-10-29

Agarrar o dia

Tenho as mãos geladas
O frio desfaz em trovoadas
A dor que tento esmagar contra as paredes pintadas
Com o meu próprio sangue

Deitado moldo o meu corpo
Como traços a pincel num quadro
Feito de lençóis de vinho tinto
São símbolos que crio de gestos sem nexo

No centro nada existe, porque sou extremos
Trago as mãos geladas
Não do frio mas do vazio que criam
Ao tentarem agarrar o dia

2007-02-13

Retrocesso

Quantas linhas destruí?
Palavras que apaguei por raiva e em desespero.
Nunca escreverei o que sinto, porque não o percebo.
Ou simplesmente porque nada sinto.
Talvez porque não quero dar conta de mim como ser só.

E num retrocesso violento como mola que se desprende em liberdade

O frio entra-nos pelas veias dentro
E a realidade como grito insurdecedor
Nesse momento reconstruo tudo o que destruí
Refaço palavras, conjugo verbos em delírio
Descubro-me nos fragmentos que tentei esquecer

2007-01-02

Monstro Adormecido

É como monstro adormecido
O medo
A ansiedade de se estar vivo

O cérebro fica dormente
O tempo alonga-se perante a presença
Dos batimentos cardíacos antes adormecidos

É como dar-se conta abruptamente
Que se está vivo
Torna-se fardo que pesa por dentro
O cansaço por inspirar
O que dá vida
E a concentração exigida
Para não parar