2003-05-31

Anjo da Guarda
















Sou anjo da guarda
São muitos aqueles que protejo
Todos aqueles que me agradecem
Por todos os perigos que prevejo

Tenho longas asas
Que se abrem e se estendem no ar
Para livrar tristezas de outros
Para eles se poderem amar

Sou eu que tento compreender o sofrimento dos outros
Sou eu que tento eliminar os seus obstáculos
Sou eu que tento poupar as suas lágrimas
É o meu trabalho e por isso faço-o sem qualquer questão

Mas no entanto...

Nunca ninguem me perguntou
Se estou triste
Se tenho problemas

Nunca ninguem me perguntou
Se também sofro
Se também choro

Sou anjo da guarda
E por isso nunca ninguem me tentou proteger
Nunca ninguem limpou as minhas lágrimas
Nunca niguem chorou por mim

Sou anjo da guarda
E tenho longas asas que se estendem no ar...

2003-05-29

Nada

Não durmo...

Não é porque não tenha sono, que não durmo
Mas sim talvez, porque tenha medo de acordar na manhã seguinte

Não respiro...

Não é porque tenha medo de inalar o frio gelado, que não respiro
Mas sim talvez, porque não percebo aquilo que expiro

Não olho...

Não é porque não perceba o mundo que me rodeia, que não olho
Mas sim talvez, porque não quero fazer parte dele

Não caminho...

Não é porque este trajecto não seja parte mim, que não caminho
Mas sim talvez, porque já sei onde me vai levar

Não sinto...

Não é porque já saiba o que todos os sentidos me dizem, que sinto
Mas sim talvez, porque nada tenho para sentir


Nada tenho para dormir

Nada tenho para respirar

Nada tenho para olhar

Nada tenho para caminhar

Nada tenho para sentir

Nada...

2003-05-24

Matou os seus filhos

Matou os filhos

Matou os seus próprios filhos
Matou-os enquanto ainda eram pequenos
Matou-os enquanto dormiam

Matou os seus próprios rebentos
Matou-os afixiando-os, cortando-lhes a respiração
Matou-os enquanto estavam silenciosos

Matou descendentes seus
Matou-os quando tinham os olhos fechados
Matou-os quando estavam tranquilos

Matou os seus próprios sonhos
Enquanto ainda eram apenas sonhos
Pois sabia que não podia viver com realidade
De um dia deixarem de o ser
E passarem a fazer parte da sua vida

Ainda hoje se arrepende...

2003-05-12

Morre aqui comigo

Sinto facas pelo peito dentro
Um lento trespasse do fio da lâmina sobre a carne quente
O sangue que sai em jactos entre convulsões de dor
Sinto o frio do metal a cortar-me os nervos

Os meus gritos de sofrimento são sangue que se espalha no chão
Formando desenhos disformes, estupidamente abstractos

Sinto sem parar punhais que me ferem mortalmente

PÁRA

Novamente, novamente ... novamente


PÁRA

Novamente, novamente ... novamente


PÁRA

Novamente, novamente ... novamente

Os meus gemidos são animais, são violentos
A minha respiração é desigual
Os meus olhos nada veêm a não ser vermelho
Sangra...Sangra, desaparece do meu corpo
Não preciso de ti pois as minhas veias já nada canalizam
Apenas ácidos, suspiros de morte

Em gestos brutos, em convulsões bruscas
Sou eu que me sacrifico, sou eu que procuro o meu coração
Com um punhal na minha mão bem fechada
Procuro o que me faz viver
PÁRA ... pára de bater
PÁRA ... pára sofrer
Morre aqui ... morre aqui comigo

Pára de me dar vida para eu poder parar de te matar