2003-12-08

Rejeição

Ninguém acreditou em mim
Por isso, não me mexi

O meu nome não foi mencionado
Por isso, não olhei

Penso aliás que
Nem sequer abri os olhos
Penso aliás que
Nem sequer consegui respirar
O ar gélido que senti
Entre os meus dedos

Ninguém rezou por mim
Por isso, não nasci

O meu nome não foi dito
Por isso, não acordei

Mantive-me deitado, inerte
Fingi que dormia
Enquanto sentia
O mundo a passar-me ao lado
As histórias dos outros
A serem contadas

Eu não abri os olhos
Fechei-os com toda a minha força
E pensei

Não me querem
Ninguém me procura
A falta que faço, nenhuma
Por isso, não pertenço aqui

2003-11-02

No lado de cá

Fui inúmeras vezes, tranformado em monstro pensante, no lado de cá.
A calma como ela escreve a minha vida, é totalmente desconcertante. As dúvidas que me destroem por dentro, são suaves brisas que me contam histórias ao ouvido.

No lado de cá, a vida é contada em pequenos quadros pintados a oléo, geometrias difusas, cores concretas, lágrimas verdadeiras. Enquanto isso, ela vai escrevendo a minha respiração, a minha explosão de sangue nas veias, ficando tudo registado na fria e absurda folha de papel.

Brincando com a pontas dos dedos, desenho a minha própria cara, nas dunas de um deserto qualquer. Desenho as expressões que vitória e derrota que tenho a cada segundo, fica tudo gravado numa praia que o oceano ainda não consegue.

No lado de cá, nem tudo é simples como nos filmes, ou nas histórias que nos contam para adormecer descansados, alegorias para vivermos tranquilos. Aqui, ela escreve apenas verdades, realidades que tentamos esconder atrás de mantos de cetim que vomitam luxúria e desejo.

No lado de cá, a sua tinta não acaba, sem a nossa terminar primeiro, é mostrado o mundo tal como ele é. O lado de cá, simplesmente não existe.

2003-10-28

Quando nos vemos

Se fosse um pensamento teu
Uma frase sequer
Algo que perdes na calçada da rua
Enquanto passas e deixas as marcas
Da tua passagem como prova
Da tua existência que fica
Em cada gesto meu que desenha
O teu sorriso num só
Traço de luz que nasce
Dentro de mim
Quando te vejo
Enquanto passas e deixas as marcas
Da tua passagem como prova
Da minha existência que fica
Em cada gesto teu que desenha
O meu sorriso num só
Traço de luz que nasce
Dentro de ti

Quando nos vemos...

2003-10-20

Corrente de ar

Hoje sofri o corte furioso da corrente de ar fria.
- "Fecha a porta!"
Senti os pelos do meu braço a desenhar frases complexas na minha pele. Ouvi suspiros de vozes que nunca desejei ouvir; Sou ser escondido.
- "Fecha a porta!"
Não quero saber! Não me interessa o que vem lá de fora, se está a chover ou nevoeiro; Pouco me importa.
- "Fecha a porta!"
A minha espinha dorsal é espada que se ergue em arrepio, os meus nervos são cabos que vibram em tensão.
Por favor fechem a porta, quebrem esta corrente de coisas que não quero entender, simplesmente não quero saber; dor já tenho demais; vozes, quero apenas a minha; o vento não me traz nada de novo; o frio é forte queimadura na minha pele.

- "Fecha a porta!" - Pois nunca mudarei a face da minha angústia, nunca serei quadro de museu em exposição.

2003-10-19

Fragmentos

Já fui fantasma das minhas próprias sombras, como ansiedade permanente em cada gesto.
Já fui dúvida verdadeira, juras de amor perdidas em parte incerta.
Já fui dor, sorriso, utopias e aventuras de alguém que se perdeu dentro de si.

Todas as rezas que foram feitas, são palavras trocadas e sem sentido.
Todas as profecias que foram levantadas do chão, são hoje pó que permanece inerte.

Já fomos gestos no ar, desenhos de tons, sons de morte, traços de cores esbatidas nas telas das nossas vidas.
Já fomos compasso perdido no sentido do próprio tempo, loucos que correm pelas ruas em busca do seu tesouro.
Já fomos pedintes que estendem a mão e trocámos tudo o que sentimos, por aquilo que pensavamos que existia, para além de cada respiração nossa.

Já fui vida; já fui morte; já fui pequenos fragmentos de vida que nunca pertenceram à minha própria sorte...

2003-10-16

Cansaço

"Isto nunca será o mesmo." Foi assim que ele se referiu à situação, a partir daquele momento tudo teria novas importâncias. Em passo curto afastou-se de mim, de cabeça baixa e mãos nos bolsos, estava resignado. Aquele instante seria ponto de viragem na sua vida, teria agora de refazer todos os seus planos, os seus sonhos. Eu quieto, incapaz de uma palavra dizer, assim permaneci, enquanto o via andar em direcção à saída. Não fui capaz de falar, de me mover, olhando todos os seus movimentos e expressões, enquanto falou comigo. Agora vejo as suas sombras, os seus desejos e sonhos a ficarem no chão, em cada passo seu. Cada esperança, cada destino, cada mundo que construiu para si a desmaiar no chão de cansaço. E eu fiquei quieto...

2003-09-26

Legendas

Se sou filme estrangeiro
Sem legendas
Sem tradução possível

Se sou peça de teatro
Num dialecto estranho
Num sotaque desconhecido

Faço-o sem me aperceber...

Gostaria de ter legendas
Daquelas que vêm nos filmes
Pequenas frases aqui em baixo
Aqui no fundo do ecrã
Dentro da minha alma
Na ponta da minha língua

Gostaria de ter um livro de instruções
Com índice completo
Com palavras-chave e bem expressivo
Dicinário de emoções
De sentimentos que tão pouco entendo
Que tão pouco sei dominar

Gostaria de ter notas de roda-pé
Onde todos poderiam ler
O que tento dizer
Onde ficasse bem claro quem sou
E assim talvez um dia
Soubesse eu próprio o que tento escrever

2003-09-22

Recortes

Os meus sentidos estão gravados
Guardados em pequenos pedaços de jornal
Que escolho e recorto
Que colo em folhas brancas de papel

Junto letras que formam palavras
Que formam emoções
Junto recortes da vida de outros
Em geometrias imperfeitas

Dou forma a uma composição desigual
Tosca e absurda
Como tudo aquilo que faço
Como a minha própria vida

Que não tem fio lógico
Que não é justa nem concreta
Que não rima

A minha vida é feita de retalhos
Tal como a minha alma
Bocados de outros
Recortes de letras gravadas em mim

2003-08-31

O sabor das tuas lágrimas

O sabor das tuas lágrimas
É conjunto de textos completos
Adjectivos, metáforas complexas
Poesia, música
Não é simples água
Que brota do teu verde
É testemunho que me dás
É vida que se desprende do teu corpo
É puro sentimento que sentes
Que sinto, que vivo
É arrepio de emoções
Que saboreio na ponta da minha língua
É um doce salgado
Que se aninha nos meus lábios

2003-08-27

Lágrimas prematuras

Chorei em conjunto
Com tudo aquilo que respira como eu.
Gesticulei gotas que caiam nas janelas
Tentei tocá-las, serão sempre artificiais?
Quando será que se formarão deste lado?
Onde tudo é sempre mais triste
Onde tudo é monótono e constante

Sou espectador, mas não me chega
Quero participar
Quero também formar desenhos
Aguarelas, cores diluídas em lágrimas
Que são minhas, mas que não as consigo tocar
Tudo começou, tudo acabou
Tão prematuro, tão fugaz

Hoje choveu lá fora.
E eu chorei em conjunto.

2003-08-22

Luzes de neon

Nesta cidade que se afoga nas horas
As sombras que se arrastam pelas paredes
De casas velhas, em histórias antigas
As cores fortes como rasgos de emoções
Cortam o escuro sem qualquer piedade
São as luzes de neon que transformam
A noite em retalhos tristes e deprimentes

A inconsistência da certeza que trazem dentro
A maneira como me ferem a vista
Como me assaltam o espírito
Como abruptamente pintam a noite em cores
Em completo desalinho e incoerência
Traz-me a mim dor, grito que trago
Aqui nunca haverá paz

Aqui nunca serei eu.

2003-08-17

Histórias

Fiz de propósito...
Tu sabias.
Não precisava de o dizer.
Não precisaste de o confirmar.

Conta-me histórias de ti.

Dei-te parte de mim
Que sei, que de certa forma
Já esperavas ouvir
Já sabias que te iria contar

Dei-te parte de mim
Que espero passe a ser
Parte de nós
Tu e eu.

Conta-me histórias de ti.

Ouvi o que me disseste e ficou gravado em mim
Como todas todas a palavras que me dedicas
Como cada momento de atenção que me dás, que te dou.
Cada momento nosso.
Cada palavra que sai da minha boca e será tua
Cada palavra que dizes e que fica em mim.
Todas as frases, serão sempre nossas.

Conta-me histórias..
Histórias nossas...tu e eu.

2003-07-27

Metamorfose

Sou insecto asqueroso, que acordo na própria cama.
Sou o resto dos outros, bocados de nada.
Sou tudo aquilo que ninguém quer ser, que ninguém quer saber.

Devagar perco os sentidos e ganho outros.
Depressa vejo quem eu realmente era, onde vivia, onde estava.

Por mim ninguém irá rezar, por mim ninguém irá se preocupar.
Apenas tu, apenas tu que um dia foste sangue do meu sangue.
Apenas tu, vês neste corpo feio e de animal, o resto de pessoa que existe em mim.

Devagar percebo quem sou, quem irei ser no futuro.
Depressa adquiro várias dores resultantes desta metamorfose.

Assim irei saber, por fim, qual a minha sorte.
Sou ser acabo, morro de fome, morro por falta de companhia.
Estou fraco, já poucas forças tenho para resistir a tamanha dor.

Devagar foste tu também perdendo a carinho por mim.
Depressa deixei-me morrer, pela falta que me fazia de ser alguém.

2003-07-04

Sinais de Inês

Não precisas de me dizer o que são, que histórias contam. São sinais da tua presença, da tua ausência. São marcas gravadas para todo o sempre no teu corpo, na minha alma. São pontos que marcam cada retrato teu, cada lágrima da tua vida, cada traço de sangue que escorre em dor pela falta de parte de ti, que esperas agora encontrar...que te espero dar. São sinais, são desenhos, são mistérios, que não precisas de me desvendar, de me segredar ao ouvido o mundo escondido que significam dentro ti. São marcas tuas deixadas em mim, são bocados teus que repousam na minha pele também. É parte de ti que sempre nos pertenceu.

2003-06-30

Dentro de mim

Trago um peso enorme dentro de mim, trago vestígios daqueles que matei, trago gritos e expressões de sofrimento. Trago sombras retidas nos meus olhos, desenhos abstractos, lágrimas, gestos nunca feitos, palavras nunca ditas. Trago dentro de mim, tudo aquilo que nunca fiz, trago dentro de mim morte e vida, compassos desalinhados de sentimentos que salpicam a folha de uma pauta em pura sinfonia, em pura desarmonia de sons e tons. Trago dentro de mim, tudo aquilo que não sou, pois o que sou já o perdi há muito. Sou restos de palavras, esboços de desenhos, tentativas de movimentos. Já perdi tudo o tinha só me resta o peso que trago, a cruz que fiz e que agora carrego dentro de mim...dentro mim.

2003-06-23

Curvas Desiguais

O mar é filho dos deuses, filho daqueles que por ele já alguma vez choraram.O mar é azul do céu, é vibrações contínuas dentro de nós. As ondas são a nossa vida. Criações imaginárias que do nada nascem. As ondas somos nós que nos enrolamos em espuma, em dúvidas, em desesperos, em alegrias e tristezas constantes. Somos curva, que se perde na areia, somos força desigual que se mostra ao céu, que tenta percorrer o máximo antes de morrer na praia.
Somos apenas ondas, que se criam e se destróiem sem qualquer pretexto, somos apenas força que se revela desnecessária no fim, somos apenas sons que rasgam os céus em busca de utopias.
Somos apenas curvas desiguais, que tentam formas perfeitas, que tentam atingir o seu máximo. Cada uma em choque com outras que o mesmo pretendem, somos pre-destinados pelas marés, pelos ventos e luas, por correntes que nos prendem ou libertam. Somos apenas sons, que cortam os céus em busca de esperança, em busca de perguntas, em busca de respostas, em busca da razão da areia áspera de inerte que nos mata, em busca de nada, em busca de tudo.

2003-05-31

Anjo da Guarda
















Sou anjo da guarda
São muitos aqueles que protejo
Todos aqueles que me agradecem
Por todos os perigos que prevejo

Tenho longas asas
Que se abrem e se estendem no ar
Para livrar tristezas de outros
Para eles se poderem amar

Sou eu que tento compreender o sofrimento dos outros
Sou eu que tento eliminar os seus obstáculos
Sou eu que tento poupar as suas lágrimas
É o meu trabalho e por isso faço-o sem qualquer questão

Mas no entanto...

Nunca ninguem me perguntou
Se estou triste
Se tenho problemas

Nunca ninguem me perguntou
Se também sofro
Se também choro

Sou anjo da guarda
E por isso nunca ninguem me tentou proteger
Nunca ninguem limpou as minhas lágrimas
Nunca niguem chorou por mim

Sou anjo da guarda
E tenho longas asas que se estendem no ar...

2003-05-29

Nada

Não durmo...

Não é porque não tenha sono, que não durmo
Mas sim talvez, porque tenha medo de acordar na manhã seguinte

Não respiro...

Não é porque tenha medo de inalar o frio gelado, que não respiro
Mas sim talvez, porque não percebo aquilo que expiro

Não olho...

Não é porque não perceba o mundo que me rodeia, que não olho
Mas sim talvez, porque não quero fazer parte dele

Não caminho...

Não é porque este trajecto não seja parte mim, que não caminho
Mas sim talvez, porque já sei onde me vai levar

Não sinto...

Não é porque já saiba o que todos os sentidos me dizem, que sinto
Mas sim talvez, porque nada tenho para sentir


Nada tenho para dormir

Nada tenho para respirar

Nada tenho para olhar

Nada tenho para caminhar

Nada tenho para sentir

Nada...

2003-05-24

Matou os seus filhos

Matou os filhos

Matou os seus próprios filhos
Matou-os enquanto ainda eram pequenos
Matou-os enquanto dormiam

Matou os seus próprios rebentos
Matou-os afixiando-os, cortando-lhes a respiração
Matou-os enquanto estavam silenciosos

Matou descendentes seus
Matou-os quando tinham os olhos fechados
Matou-os quando estavam tranquilos

Matou os seus próprios sonhos
Enquanto ainda eram apenas sonhos
Pois sabia que não podia viver com realidade
De um dia deixarem de o ser
E passarem a fazer parte da sua vida

Ainda hoje se arrepende...

2003-05-12

Morre aqui comigo

Sinto facas pelo peito dentro
Um lento trespasse do fio da lâmina sobre a carne quente
O sangue que sai em jactos entre convulsões de dor
Sinto o frio do metal a cortar-me os nervos

Os meus gritos de sofrimento são sangue que se espalha no chão
Formando desenhos disformes, estupidamente abstractos

Sinto sem parar punhais que me ferem mortalmente

PÁRA

Novamente, novamente ... novamente


PÁRA

Novamente, novamente ... novamente


PÁRA

Novamente, novamente ... novamente

Os meus gemidos são animais, são violentos
A minha respiração é desigual
Os meus olhos nada veêm a não ser vermelho
Sangra...Sangra, desaparece do meu corpo
Não preciso de ti pois as minhas veias já nada canalizam
Apenas ácidos, suspiros de morte

Em gestos brutos, em convulsões bruscas
Sou eu que me sacrifico, sou eu que procuro o meu coração
Com um punhal na minha mão bem fechada
Procuro o que me faz viver
PÁRA ... pára de bater
PÁRA ... pára sofrer
Morre aqui ... morre aqui comigo

Pára de me dar vida para eu poder parar de te matar

2003-04-21

As mãos sujas

Enquanto lhe apontava a arma, ele calmo sentou-se, acendeu o charuto e suavemente levou-o à boca, em bafos pequenos o fumo soltou-se em frente da sua cara paciente. E eu tremia por dentro, sentia todo o meu corpo a soluçar de adrenalina, na minha cabeça o vazio, tudo passava nada ficava. Olhou-me nos olhos e disse, "Terás as mãos sujas do meu sangue que será o teu", e de seguida uma lágrima desprendeu-se de um olho seu e devagar desceu da sua face enquanto eu apertava o gatilho. De repente num estrondo enorme parou e o som transformou-se num frio insustentável e eu, levando a mão à cara, reparei entao que a lágrima era afinal minha.