2003-10-28

Quando nos vemos

Se fosse um pensamento teu
Uma frase sequer
Algo que perdes na calçada da rua
Enquanto passas e deixas as marcas
Da tua passagem como prova
Da tua existência que fica
Em cada gesto meu que desenha
O teu sorriso num só
Traço de luz que nasce
Dentro de mim
Quando te vejo
Enquanto passas e deixas as marcas
Da tua passagem como prova
Da minha existência que fica
Em cada gesto teu que desenha
O meu sorriso num só
Traço de luz que nasce
Dentro de ti

Quando nos vemos...

2003-10-20

Corrente de ar

Hoje sofri o corte furioso da corrente de ar fria.
- "Fecha a porta!"
Senti os pelos do meu braço a desenhar frases complexas na minha pele. Ouvi suspiros de vozes que nunca desejei ouvir; Sou ser escondido.
- "Fecha a porta!"
Não quero saber! Não me interessa o que vem lá de fora, se está a chover ou nevoeiro; Pouco me importa.
- "Fecha a porta!"
A minha espinha dorsal é espada que se ergue em arrepio, os meus nervos são cabos que vibram em tensão.
Por favor fechem a porta, quebrem esta corrente de coisas que não quero entender, simplesmente não quero saber; dor já tenho demais; vozes, quero apenas a minha; o vento não me traz nada de novo; o frio é forte queimadura na minha pele.

- "Fecha a porta!" - Pois nunca mudarei a face da minha angústia, nunca serei quadro de museu em exposição.

2003-10-19

Fragmentos

Já fui fantasma das minhas próprias sombras, como ansiedade permanente em cada gesto.
Já fui dúvida verdadeira, juras de amor perdidas em parte incerta.
Já fui dor, sorriso, utopias e aventuras de alguém que se perdeu dentro de si.

Todas as rezas que foram feitas, são palavras trocadas e sem sentido.
Todas as profecias que foram levantadas do chão, são hoje pó que permanece inerte.

Já fomos gestos no ar, desenhos de tons, sons de morte, traços de cores esbatidas nas telas das nossas vidas.
Já fomos compasso perdido no sentido do próprio tempo, loucos que correm pelas ruas em busca do seu tesouro.
Já fomos pedintes que estendem a mão e trocámos tudo o que sentimos, por aquilo que pensavamos que existia, para além de cada respiração nossa.

Já fui vida; já fui morte; já fui pequenos fragmentos de vida que nunca pertenceram à minha própria sorte...

2003-10-16

Cansaço

"Isto nunca será o mesmo." Foi assim que ele se referiu à situação, a partir daquele momento tudo teria novas importâncias. Em passo curto afastou-se de mim, de cabeça baixa e mãos nos bolsos, estava resignado. Aquele instante seria ponto de viragem na sua vida, teria agora de refazer todos os seus planos, os seus sonhos. Eu quieto, incapaz de uma palavra dizer, assim permaneci, enquanto o via andar em direcção à saída. Não fui capaz de falar, de me mover, olhando todos os seus movimentos e expressões, enquanto falou comigo. Agora vejo as suas sombras, os seus desejos e sonhos a ficarem no chão, em cada passo seu. Cada esperança, cada destino, cada mundo que construiu para si a desmaiar no chão de cansaço. E eu fiquei quieto...