No lado de cá
Fui inúmeras vezes, tranformado em monstro pensante, no lado de cá.
A calma como ela escreve a minha vida, é totalmente desconcertante. As dúvidas que me destroem por dentro, são suaves brisas que me contam histórias ao ouvido.
No lado de cá, a vida é contada em pequenos quadros pintados a oléo, geometrias difusas, cores concretas, lágrimas verdadeiras. Enquanto isso, ela vai escrevendo a minha respiração, a minha explosão de sangue nas veias, ficando tudo registado na fria e absurda folha de papel.
Brincando com a pontas dos dedos, desenho a minha própria cara, nas dunas de um deserto qualquer. Desenho as expressões que vitória e derrota que tenho a cada segundo, fica tudo gravado numa praia que o oceano ainda não consegue.
No lado de cá, nem tudo é simples como nos filmes, ou nas histórias que nos contam para adormecer descansados, alegorias para vivermos tranquilos. Aqui, ela escreve apenas verdades, realidades que tentamos esconder atrás de mantos de cetim que vomitam luxúria e desejo.
No lado de cá, a sua tinta não acaba, sem a nossa terminar primeiro, é mostrado o mundo tal como ele é. O lado de cá, simplesmente não existe.
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