2003-07-27

Metamorfose

Sou insecto asqueroso, que acordo na própria cama.
Sou o resto dos outros, bocados de nada.
Sou tudo aquilo que ninguém quer ser, que ninguém quer saber.

Devagar perco os sentidos e ganho outros.
Depressa vejo quem eu realmente era, onde vivia, onde estava.

Por mim ninguém irá rezar, por mim ninguém irá se preocupar.
Apenas tu, apenas tu que um dia foste sangue do meu sangue.
Apenas tu, vês neste corpo feio e de animal, o resto de pessoa que existe em mim.

Devagar percebo quem sou, quem irei ser no futuro.
Depressa adquiro várias dores resultantes desta metamorfose.

Assim irei saber, por fim, qual a minha sorte.
Sou ser acabo, morro de fome, morro por falta de companhia.
Estou fraco, já poucas forças tenho para resistir a tamanha dor.

Devagar foste tu também perdendo a carinho por mim.
Depressa deixei-me morrer, pela falta que me fazia de ser alguém.

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